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Súbito descontrole
Não é possível. Não pode ser possível que eu tenha que passar metade do meu dia num inferno de trabalho, fazendo serviço triplicado, sem uma única pausa para alguns minutos de descanso além do horário de almoço, para então chegar em casa tarde, sem poder praticar minha música porque posso incomodar os vizinhos. Tenho, seja como for, que ficar ouvindo miríades de coisas que não me interessam ouvir quando chego cansado e querendo momentos para introspecção – e, se fosse só ouvir, tudo bem; mas, tenho “obrigação” de pensar a respeito, de ter ideias para planos que não são meus. Não tenho tempo nem para pensar nos meus próprios ideais! Cada partícula de inspiração me é tirada para finalidades diversas e alheias; e o que ganho? Um cisto no pulso, para me impedir de tocar guitarra. Pesadelos – pode parecer ridículo, mas ocorreram – com clientes taciturnos me olhando feio através do breu de algum aposento da imaginação onírica e me empurrando suas fichas para que eu os atenda de uma única vez, e se desrespeitando uns aos outros e exigindo minha mediação em seus conflitos egoístas. Não consigo ler meus livros. Todo tempo que consigo para tal fim, nunca me encontro sozinho – só se eu fosse para lugares distantes, o que, para uma solução cotidiana, imediata, é impraticável. Escrever algo substancial, neste estado, então, quase nem cogito; meus textos estão criando aranhas. Só consigo escrever isto neste átimo de descontrole porque só assim consigo me acalmar. Queria mesmo era quebrar a louça e o armário e gritar palavrões impressionantes. Mas, não posso. É mais de uma da madrugada. E, ora, o Felipe? Não, o Felipe nunca perde o controle. E se sente culpado até mesmo por ficar uma hora inteira bufando, em um raríssimo ataque de nervos, se espreguiçando e se contraindo e abraçando os móveis da cozinha. Sente-se culpado por ter chegado a este ponto, sente-se culpado por não conseguir dar atenção às pessoas de quem gosta, e também se sente culpado por ter dado liberdade demais para que pessoas de quem não gosta exijam sua atenção. Fico planejando dar um basta, mas também me sentiria culpado. Este é um relato em tempo real. Estou tremendo. Mas, mais calmo. Vim me deitar. Quando começou, há uma hora, estava num misto de tédio e aborrecimento tão profundos que não havia nada que eu pudesse fazer que não me irritasse mais. Comer, ler, escrever, dormir, ouvir música; nada. Ficar parado e odiando todo o teor da existência era a única forma de não implodir. Mas, aí veio a obrigação de me movimentar, de pegar meus óculos do chão, de comer. Foi então que fui à cozinha e repuxei a camiseta para esticá-la pelo rosto e cobri-lo. Estava frio, e fiquei com o torso a descoberto por um bom tempo antes de percebê-lo. Fiquei pensando. Como me desgasta esta cidade imunda, cheia de animais, que se dizem homens, nojentos. Sobre como coisinhas lindas e cheias de afeto atribuído são execráveis nestas horas, tais quais um monte de fitinhas coloridas que tenho numa caixinha, um boné, uma xícara com uma careta desenhada etc. Queria pôr fogo nisso tudo, quebrar, estraçalhar. Mas, e o afeto? Por que atribuímos valores sentimentais às coisas, que nos impedem de destruí-las? Fiquei pensando. Sobre como queria estar em outro lugar, com determinada pessoa, em outro século – distante, num tempo bem passado, quando ainda boa parte do mundo era um mistério e a cartografia era um ofício de novidades constantes. Fiquei pensando. Como, de qual maneira ainda posso querer estudar, se sem isso já estou assim? Onde haveria tempo necessário para todas as minhas opções e obrigações? Fiquei, além disso tudo, pensando sobre a significância de meu desespero. Todo dia, quando vou trabalhar, vejo pessoas que talvez não se lembrem de seus próprios nomes andando descalças pelas ruas imundas do centro. Quando penso nelas, sinto-me ainda mais culpado por ficar angustiado com meus nobres problemas. Imagino moralistas me dizendo “Você tem sorte de poder trabalhar, mesmo que se desgaste nisso!”, “Sorte sua ter um móvel dentro de uma cozinha também sua para ter vontade de esmurrá-lo”. Mas, dentro de meu próprio contexto, tenho, sim, direito de me angustiar. Agora, estou mais calmo. Amanhã, arrumarei este texto todo e publicarei. Agora, vou dormir. Deixei coisas a fazer. Mas não me importo nem de relembrar quais são. Amanhã, amanhã. Hoje, já estourei. Exauri-me. Já terei dormido, acordado e revisado o texto no próximo parágrafo. O que de fato aconteceu; o eu das linhas acima é parte de um bloco de espaço-tempo que já passou. O texto já não contém todas as partes originais, como também possui trechos novos, adicionados pelo eu presente. Estou sob meu domínio novamente. Mas, nada mudou. Tive alguns segundos para tocar minha música depois que cheguei, hoje. O pulso, aliás, ainda dói. Hoje, pelo menos, não houve muitos conflitos na loja. Só não perco a razão pois forço-me a crer que algum dia estarei melhor. Vou ver se escrevo sobre os mistérios do mar, agora. Abraços.
Escrito por Felipe Augusto às 00h43
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Teorias dialogadas - ... Quer dizer que você acredita mesmo em um paraíso? - Sim; é onde, depois de nossa vida honesta pela Terra, viveremos para sempre em alegria. - Você tem alguma ideia do que significa, de fato, “para sempre”? Não acha que, algum dia, mesmo que esse paraíso exista, vai acabar? - O Reino dos Céus é eterno. - E o que você vai fazer durante toda uma eternidade lá? Tenho certeza de que você nunca assimilou o conceito de “eternidade”. - Não há necessidade de se cogitar os afazeres celestes da eternidade; simplesmente existiremos em paz divina, na presença de nossos queridos que já partiram e de outros, bons, enquanto ruirá o mundo terreno e as almas pecaminosas danarão eternamente, enquanto desfrutaremos do Paraíso, nas profundezas hediondas do Inferno. - Sei. Mas, como será a rotina paradisíaca? Vocês, que pretendem ir para lá a qualquer custo, vão apenas ficar olhando uns para as caras dos outros e ficar felizes com cada presença anônima aprovada para entrar em tal Reino? Será um antro de todas as emoções puras, honestas e positivas? Sobre o que conversarão? Qual será o assunto cotidiano? O baixo firmamento repleto de tenras nuvens? O sempiterno aroma de flores recém-desabrochadas, a singeleza de paisagens rurais e a vivacidade dos ingênuos animais que por ventura por lá estiverem? Dou alguns anos para não se ter mais sobre o que se conversar, não ter mais distrações. Tudo vai virar um grande tédio. E volto naquilo: mesmo o Paraíso não terá um desfecho repentino – assim como teve um começo inexplicável, o universo – mesmo em seu Deus? - Você não entende. Deus é a razão. Deus, é inexplicável, e isso explica quaisquer inícios e termos. Deus é a origem, o fim e o recomeço. Deus é a unidade que abriga todas as propriedades do cosmo. Quanto à “rotina”, não pense no Paraíso como uma cópia rural da vida na Terra. Lá, estaremos distantes das preocupações; dentre elas, a que você chama de “rotina”. Viveremos num fluxo que nos impelirá distraidamente pelos deleites dos sentimentos bons. Não será um mundo físico e, destarte, corruptível. Estaremos distantes do alcance de qualquer maldade, seja exterior ou de nosso próprio interior. - Quando estiver por lá, nunca irão – como haverá bastante tempo para se pensar – conjeturar sobre o que os aguarda além das fronteiras do Paraíso? E o Tempo, que um dia virá para destruir a Memória? Acham que estarão seguros do final do processo que não se sabe como, nem quando – e nem mesmo se –, se iniciou, que possibilita a existência da consciência, que é o deslocamento do espaço pelo tempo? Tem certeza de que não nascerá discórdia do tédio de tantos milhares de séculos de “sentimentos bons”? - A percepção do tempo será diferente. Não se contarão em anos, dias, horas, como se faz aqui. Viajaremos dentro do tempo, e não através dele. E o tempo não findará. O universo não encontrará um final. - Se você considera, então, que não haverá ocaso para o cosmo, dará na mesma qualquer percepção do tempo a passar. Como nunca vai acabar, em algum momento o peso do acúmulo dos eventos e dos sentimentos os enfastiará, e vocês estarão eternamente presos à felicidade do Paraíso. E isto é abominável: estar preso a uma vontade, que não mais é sua, de forma inescapável. - Está insinuando que algum dia “enjoaremos” da presença tão mais próxima, certeira e constante de Deus? Você acha abominável viver em alegria eterna? Ora! Vocês!..., vocês são incompreensíveis. Buscam, durante a vida inteira, provar coisas tão absurdas quanto parecem ser as nossas a vocês. O que me aflige é que o que querem provar é a negação absoluta. Querem negar que exista um Mistério ancestral e infinito, sendo que nós o respiramos constantemente – não há quem não sinta a tangibilidade inextricável da existência como um todo! Querem negar tudo tenha um propósito, o que é, contraditoriamente, praticamente comprovado por suas próprias teorias – não foram vocês mesmos quem calcularam que a existência de vida, ainda mais inteligente, tão somente é possível sob circunstâncias tão específicas que se consiste um evento da mais extrema raridade? - Concordo; entretanto, como qualquer teoria, teísta ou ateísta, que é conjeturada – que, a partir do momento em que nasce, não se consegue provar ser verdadeira nem falsa –, surgiu, ao mesmo tempo dessa que diz sobre a raridade da vida, a hipótese dos multiversos, e de que estamos no único, ou um dos únicos, dentre infinitos outros que falharam em conceber vida. E você me dirá “ora, o que te faz pensar que teve a sorte de estar exatamente no universo certo, sendo que em todos os outros não há consciência para se sentir?”, ao que eu responderei “Por isso mesmo; a consciência, só existindo sob as condições raras em que nos encontramos, só consegue alcançar a si mesma se, obviamente, existir em algum lugar”. Só se pode existir, e saber disso, onde há essa possibilidade. Alguém tem que estar em algum lugar para se pensar sobre qualquer coisa e acabar chegando onde estamos. E o lugar só pode ser onde há a possibilidade de consciência, é claro. Estamos aqui para provar que não estamos alhures. E outra: se, aceitando a hipótese dos multiversos, ainda assim não houvesse em nenhum deles a mais singela forma de vida e consciência, se todos os versos do cosmo fracassassem em conceber a vida e atribuí-la, em algum momento, consciência de si própria e do decurso do tempo, seria como se tudo jamais tivesse existido, nem tentado existir. Não haveria alguma coisa, algum alguém para sentir o tempo passar, para sentir sua inexorabilidade. O cosmo precisa de nós para existir. Só existe através de nós. Teria sido um descaso consigo se não nos houvesse criado, para que, destarte, se sentisse sua existência. O cosmo – a menos que seja ele mesmo algo vivo e consciente, e minhas teorias não descartam essa possibilidade – existiria sem o tempo, explodiria e se encolheria novamente e voltaria ao vazio primordial sem que nada além de trocas químicas invisíveis ocorressem, sem qualquer motivo maior, mas apenas um conjunto de ações e reações arbitrárias. Se quiser, pode considerar isso uma forma de vida. Talvez o universo seja uma consciência colossal, cujas ressonâncias dos pensamentos sejam o que nos faz acreditar em deuses e ciências. - Chega um momento em que se deve escolher entre analisar a bênção da vida de forma branda, aceitando que possa haver uma presença de consciência pairando em cada recanto do mundo físico que não apenas a de Deus, mas de qualquer reação química, ou só aceitar a existência de vida ao que nossos olhos enxergam, o que nos pode fazer parecer muito arrogantes, quase como detentores de uma percepção aguda, perfeita, incontestável. É paradoxalmente terrível o mundo das ideias, que nos flagela com o açoite da prepotência sob qualquer tentativa de julgar, comparando, o certo e o errado, a vida e sua ausência. Veja, compreendo todas as suas teorias. Percebo que você entende a sutileza entre cada uma das crenças, afinal. Isto que estamos tendo não é uma discussão, um debate nocivo. Acredito, agora, fora de intrigas existenciais e hipotéticas, que estamos criando um agradável e construtivo laço de amizade. - Sim, acho que estamos. Mas, tantas teorias me cansaram a mente e até os músculos do rosto, com o esforço da concentração. Sinto tantas ideias tão entrelaçadas que prefiro deixá-las para analisar posteriormente – como se deixa para tentar soltar um embaraçado de fios de costura, onde qualquer um que for puxado erroneamente acarreta num nó quase indesatável, quando se tem as vistas descansadas, para se escolher os certos a puxar. - Ah, sim, também sinto o mesmo. Olha, lá vem. Você vai até qual estação? - Até a final. - Eu desço na quinta, daqui. Olha, é um daqueles trens novos! São um barato. Vamos, tem um banco para dois ali, desocupado. - Sim, vamos. Eu sempre vejo os trens novos da outra linha. Estes desta são raros! - Ah, é? Comigo é o contrário. - Mas, considerando o fluxo de usuários e do itinerário usual de cada um, é mais comum ver os da linha que eu disse. - Só se você considerar que... (e discordaram alegremente por mais cinco estações naquele dia, e em outros; então, se tornaram e continuaram grandes amigos até que o Mistério os tomou da vida sobre a Terra e os levou para longe da Memória e para mais perto do Tempo, onde pudessem provar – ou não – suas conjeturas um ao outro)
Categoria: Devaneios
Escrito por Felipe Augusto às 03h20
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Coisas diversas Estou para falar sobre coisas diversas. Estou muito irritado. Torci para que alguém de cara feia me irritasse um pouco além do normal hoje, depois de determinado momento. Só para ver até onde conseguiria me segurar para não esbravejar, ou descolar uma briga estúpida. Sabem, estive pensando sobre pessoas. Bem, cada dia mais se afastam de minha mentes as incólumes percepções que de uma tinha. Perdem o brilho incomum e se tornam vulgares com uma facilidade tão maçante, as pessoas, as coisas! O que mais intriga é lembrar de como ainda há pouco eu ainda sustentaria em ideologia sua imagem repleta de uma graça resplandecente, uma leveza sublime; mas, hoje, ela toma a forma banal do grupo geral de pessoas meramente “interessantes”. Não omitirei que há uma vibração no fundo de minha alma que a guarda em toda a sua beleza mais apaixonante – aquela primeira beleza, que permanece fora de todo o tempo, de toda palavra, de qualquer ponderação –; agora, entretanto, parece apenas um resquício ainda grave, ainda vivo do passado, mas prestes a desafinar, a desbotar. E, olhe, de outra poderia dizer que é alguém que se deve deixar antes que se queira demais, mas quero mesmo até parecer presunçoso e orgulhoso enquanto puder acreditar em toda a força da afinidade. Sou eufórico com cada pequeno sucesso – embora qualquer deslize me desmoralize gravemente –, e sou melhor neles que nos grandes. Apraz a mim acompanhar o desenvolvimento do afeto, a evolução do desejo; é uma cascata borbulhante de emoção no coração a cada sentimento recíproco, a cada ideia correspondida, a cada pensamento antecipado. Cheguei a uma pequena conclusão, talvez improvável, inexata, mas interessante, hoje: o se ama os detalhes – consequentemente, o passado, pois os detalhes de que falo são fatos, não aleatoriedades ainda para surgir – ou o continuum, a experiência em decurso. Há os que prestigiam o passado, os locais, suas histórias, e os que apreciam a mudança, o dinamismo, o que se torna novo. Não se pode amar os dois, verdadeiramente, ao mesmo tempo. Não se pode amar as vielas históricas de sua cidade quando se ama o progresso que as quer reformar. Nem a facilidade de um laptop quando não se consegue se acostumar com um teclado tão miúdo e com a ponta do dedo como mouse. Não sei dizer se um ou outro é mais ou menos condecorável, válido; sei que faço parte, acho, dos que gostam dos detalhes. E, digam, não acham que falta alguma coisa muito grande na configuração do universo, algo que nos permita vazar reflexões inefáveis e toda a ideologia do pensamento? Sinto-me muito afogado nas coisas que penso. Literatura, por si só, não me parece que será sempre suficiente; quis me expressar por música, mas ela também, sozinha, não atinge todos os objetivos. As duas juntas, como tento misturar, também ainda não são completas. Talvez a única solução possível seja a empatia total entre todos os indivíduos, o que, num primeiro momento, seria uma avalanche de informação e satisfação, mas, num segundo, a unificação de todas as ideias e pensamentos. Seríamos uma unidade, seríamos deus, não existiria nenhuma necessidade espiritual que nossa unidade não suprisse. Seria uma questão de escolha: continuar como estamos ou sanar todas as dúvidas e satisfazer todos as vontades da alma por um certo tempo... pelo preço do fim do progresso científico e tecnológico da humanidade e, depois desse certo tempo, o eterno enfado.
Categoria: Migalhas
Escrito por Felipe Augusto às 01h33
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Unfarewelling Achei que seria eu quem não fosse conseguir passar dessa. Achei que nunca conseguiria sair deste problema. Ora, nem nunca fora um problema também seu, aliás. Seria muito insensato de minha parte exigir que você ficasse num impasse comigo. Agora: passei por uma turbulência terrível, fiquei atordoado, mas consegui seguir; foi tão sutil a mudança, foi tão raro o acorde que me guiou! E, agora, você vem e me diz sobre amor? Quem, depois de tudo, você imagina ser - ou continuar sendo, talvez - para se jogar de volta na minha incrível nova vida? Não acha que me deve algum tipo de respeito? Assim como eu respeitei suas escolhas, como acatei seus descasos, como suspirei sua inércia? Eu aproveitei apaixonadamente, euforicamente, completamente uma oportunidade maravilhosa que me surgiu, eu me abracei a ela com todo o meu ser, com todo um ardor ainda maior que o que achava infinito e que era para você, e veja! Não direi que te esqueci, mas você se tornou apenas uma faísca no meio do sol que ajudou a criar! Agora você vem e me diz que é uma nova fase, diz que não enxergava com clareza, que estaremos melhor juntos? Só não sou rude com você pelo que representou para mim! Pelo que ainda representa e sempre representará, aliás, e você sabe muito bem disso! Só porque te amei com tanta devoção que hoje sou tão livre e feliz amando outra pessoa! Mas o pior é que você me abala! Vou ter calafrios, vou suar pensando em por que este tipo de coisa acontece comigo. Por que você surgiu pela primeira vez? Se bem que foi bom, pela cadeia de eventos que acabou me trazendo até onde vim. Por que você voltou, então? Não ficou tudo certo? Eu quis tirar você dos temas centrais da minha vida por tantas vezes, mas não há meio! Queria te deixar apenas em um recanto bonito da memória, mas você sempre paira, sempre circula, sempre volta à minha mente! Por favor, considere tudo pelo que passei. Se tem um pouco de apreço por mim, deixe-me sem você. Estou certo de que consegue superar sua crise, como superei a minha. Te amo. Adeus.
Categoria: Especial
Escrito por Felipe Augusto às 01h09
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A obrigação dos professores
Não é obrigação apenas de professores de Português saber falar e escrever bem em nossa língua nativa. É de todos os seus falantes. - Mas por que eu preciso saber Português direito se trabalho com [cargo aleatório]? E se estudo [curso aleatório]? - Geralmente, para quem faz esse tipo de pergunta com a idade que você está, já não adianta resposta alguma. É provável que, exatamente pelo motivo de ter me perguntado algo assim, não a entenda. Entretanto, não sou de deixar de lado as poucas esperanças da erudição coletiva para com todos os seus colaboradores; então, vou te explicar. Você, como todo ser humano, deve ter domínio sobre sua língua nativa por vários motivos. Em princípio, porque a racionalidade vem da capacidade de comunicação, interação e formulação de pensamentos. O simples ato de pensar exige, para as mais complexas formulações, que levam à verdadeira e sacrossanta racionalidade humana, a habilidade de ligar e correlacionar símbolos – ou seja, os componentes de nossos sistemas alfanuméricos. São os grupos de símbolos – as palavras – que concretizam toda a abstração, interna e externa, em que vivemos, e creia-me: tudo o que existe é abstrato. Mas precisamos nomeá-lo. Precisamos nomear o máximo de coisas possíveis para que, em termos comuns – e não em gestos e desenhos subjetivos – possamos nos comunicar a respeito delas. Discordar. Teorizar. Concordar. Concluir. Somos capazes de tudo isso quase tão somente por conta da linguagem. E só por ela somos nós que temos verdadeira consciência sobre o universo. Não que os outros animais percam muito com isso; mesmo o conhecimento divino não leva a nada, porque o mistério original é maior e se encontra além de todas as expectativas de todas as ciências e religiões. Depois, em qualquer carreira que for, você precisará, em algum momento – ou, o que é mais certo, em vários – interagir com outras pessoas, pois o trabalho só existe e é necessário porque somos uma sociedade. Seja qual for a posição hierárquica que assumir em qualquer empresa, e mesmo se trabalhar por conta própria, você terá que se comunicar com clientes e superiores, ou subalternos. Em todos os casos, um comunicado, uma declaração, um aviso, o que for, mal-escrito é horrível. Não transmitirá segurança, nem será devidamente respeitado pelos outros. Ainda além, posso dizer que você não vive plenamente se não domina a linguagem. Já estamos lançados em um lugar suficientemente misterioso e, se pensarmos bem, indescritível. Já é difícil, com todo o vocabulário que temos à disposição, traduzir nossa interpretação dos sentidos para o mundo. Por tantas vezes você fica sem saber como dizer o que sente que, para não ficar constantemente angustiada, vai bloqueando essa necessidade. Você vai bloquear cada vez mais as possibilidades de definir – e, assim, de poder interagir melhor com os outros – seu íntimo, atrofiando sua vontade, sua capacidade, seu ser. Você irá sumir, será como tantos que somem diariamente da história da humanidade sem deixar rastros, será ainda mais irrelevante que um ser sem consciência, que nasce, vive, se reproduz e morre, deixando apenas a certeza da continuidade da espécie. Não que isso não seja importante, e o é, deveras; mas, nos foi dada a raríssima oportunidade da racionalidade, e melhor, a capacidade de aprimorá-la. Temos um tempo, como civilização, tão pequeno para tentar entender alguma coisa – e, mesmo que já tenhamos chegado ao ponto em que se sabe que nada se pode verdadeiramente saber, continuamos resolutos – e você e mais tantos outros como você têm coragem de passar uma vida inteira sem sequer tentar entender melhor o mundo através da linguagem? Saber que isso ocorre com alta frequência é repulsivo, blasfemo! - Nossa!, como você se acha. - ... Você fica aí, com sua cara cansada e seu olhar raso, barrento, pensando no motivo pelo qual está ouvindo a tudo que digo, e tentando encontrar palavras para rebater. Você tem a ideia de uma grande frase, de um argumento convincente, mas não tem palavras para expressá-la. Então você diz algo como “cuide da sua vida”, ou “que frescura”, e se contenta! Além, ainda tenho que ouvir que estou “com inveja”! Ainda tenho que aceitar esta crendice estimuladora de que todas as pessoas são únicas, que você é cheia de personalidade! Ah!, me poupe disso! Você e mais cem mil imbecis são absolutamente iguais! E há outras centenas de milhares em profundo estado de coma espiritual auto-induzido. É angustiante; fico imaginando: tanto progresso intelectual que poderíamos ter atingido se não fosse pelos fracos e preguiçosos como você! Agora, vou encerrar esta conversa, e não quero ouvir uma única palavra irritante saindo dessa sua boca. Não quero ver a menor expressão de descaso na sua cara amorfa. Nem um risinho de escárnio. Quero mesmo é que você esqueça de tudo que eu falei, pois constato que isso que você tem só pode ser uma doença incurável. E transmitida por contato prolongado. Não quero mais nem te ver, se puder. - Não vai mais me ver mesmo, porque enquanto você fica pensando nessas suas coisinhas cultas, eu vou estudar algo importante de verdade, que o mundo precisa hoje em dia, e não essa sua filosofia que não leva a lugar algum. Esse monte de palavrinhas bonitas, eu sou prática, não preciso disso, não tem mais necessidade disso. Você fala assim só porque sabe que eu não sei um monte de coisa que você falou. Mas, duvido que você saiba preencher uma ficha de Controle de Circulação de Chave. -Ah!, que me importa essa porcaria de ficha! Eu disse pra ficar quieta! - A boca é minha, fico quieta se eu quiser. E foi assim que, naquele dia, uma pessoa foi morta e outra foi presa.
Categoria: Migalhas
Escrito por Felipe Augusto às 02h09
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Os lindos desfechos românticos
Não se pode mais escrever algo grandioso. As pessoas esperam sempre desfechos lindos e simplistas, que possam ser apreendidos com o menor dos esforços pelas suas cabecinhas preguiçosas. Nem para enredos objetivamente dissecados e explicitados de novelas que duram meses rodeando assuntos simples dão uma chance! Há mil revistas semanais explicando para as madames de forma ainda mais simplória tudo que não têm interesse de tentar compreender, indicando as ligações que nem ousam por si próprias fazer! Não pode ser! Não! Que não seja o fim das grandes histórias, cujos heróis perturbados, oscilando entre a responsabilidade de seus destinos e o apego pela vida, se sacrificam, sem volta, pelos seus objetivos! Pois tantos são ressuscitados depois! Que atitude medíocre, de tantos criadores, permitir sempre a ridícula, absurda e forçada felicidade completa de suas personagens ao final de cada romance! Não há tragédia real no mundo que não seja reparável, então? Escrever é dar vazão aos sonhos, mas... por que nunca permitir à arte uma renovação em seu potencial emocionante? Por que nunca destruir quaisquer expectativas de quem lê, ouve, assiste? E, mesmo quando se tenta criar um enredo mais cruel para as personagens, sempre há tempo, e por isto todos esperam, para a consumação de pelo menos um lindo beijo apaixonado antes do apocalipse, antes que o casal nunca mais se encontre. Por que não o desespero da absoluta perda física? Da insatisfação eterna, do completo erro; por que não a manifestação chocante de um ódio surreal de alguém por si mesmo por ter dado chance ao mais abjeto fracasso? Para onde levaram e trancafiaram a beleza da verdadeira tragédia? É reconfortante a história que termina sem perdas significativas. Entretanto, sempre procurei alguma que me fizesse emocionar verdadeiramente, lá no íntimo. Por todos os esforços terem sido em vão, queria chorar de angústia. É um tipo de emoção que não se encontra mais descrito. Talvez mais real e comum que se imagina. Matarei mais algumas personagens minhas.
Categoria: Migalhas
Escrito por Felipe Augusto às 00h41
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Sobre maiúsculas e minúsculas Alguém tente me dizer sobre o que não se imagina que outrem possa sentir como sinto. Para mim, e é dispensável qualquer estudo que prove o contrário, não se ama ninguém como amo alguém. Pelas galerias de minhas recordações, há inumeráveis sorrisos de amor em retratos vívidos, e eu caminho pelos corredores dos salões de minha paixão a olhar cada olhar de um castanho claro e divino que se imprime em mil tonalidades em suas íris que contêm todo o amplexo de sentimentos fugidios nos quais naufrago sem me molhar, pois fogem de meu toque por centímetros.
É uma questão de abandono. E dedicação. Vejo ao longe, ainda que às vezes bem pálido, quase indistinguível, a raiz das minhas motivações para tudo. É um só sonho, um só desejo, que me faz buscar todos os meios para alcançá-lo. Isso faz com que os meios se confundam com "outros sonhos". Os meios são tudo que buscamos aperfeiçoar: alguma forma de expressão artística, altas patentes em empresas, vigor físico, etc.. Tudo não passa de meios para se atingir o objetivo maior, o grande sonho - vamos torná-lo graficamente especial adicionando maiúsculas: O Grande Sonho.
O Grande Sonho. Ele surge a qualquer momento e nunca mais vai embora. Se algum dia se acreditou ter O Grande Sonho presente, mas depois dele se abriu mão, não era O Grande sonho; era só um grande sonho. Penso que, embora esteja escrevendo sobre algo tão incrível, talvez o que eu tome por O Grande Sonho na minha vida seja, na verdade, só um grande sonho. Não posso afirmar que sei que é ou não; eu estaria sendo obtuso, e tenho apreço pela incerteza. Mas, pelo menos por agora, a mim me parece que Meu Grande Sonho é o definitivo. E por ele eu me dedico às atividades que me agradam e vivo meus "meios" disfarçados de outros sonhos, sempre à espera do dia em que a melhor das chances soprará sua deixa em meu ouvido, e serei um misto indissociável de técnica e impulso, de controle e receio, de precisão e titubeios e, em um só momento, em uníssono, se todos os diminutos planos derem certo, se abraçarão Dois Grandes Sonhos.
Meu Grande Sonho é um momento. Pela minha mente passam cinematograficamente detalhes espetaculares da ocasião, eu vejo os olhos e os sorrisos, ouço os acordes, sinto os perfumes e os cabelos livres nos lados dos rostos, há também o delicioso frio que nos invade a partir do coração em momentos emocionantes, mas ainda mais forte, sinto as dores das angústias fugindo da certeza, e haverá também o luar, pois será durante a noite, e estrelas longínquas, que talvez sustentem outras vidas a contemplar o brilho mínimo e unidimensional de nosso astro e a realizar Seus Grandes Sonhos e a imaginar se há vidas realizando Seus Grandes Sonhos sustentadas por este pontinho de luz enquanto pensam a mesma coisa sobre eles e daí para sempre neste ciclo. Meu Grande Sonho é lindo em prosa, verso, acorde, tinta e, é claro, possui todo o encanto do mistério existencial.
Depois dele, quero uma vida de profundo deleite, sem mil roteiros por dia, e todas as grandes realizações somente possíveis após o sucesso d’O Grande Sonho.
Depois, vem O Fim, e o começo d'A Grande Memória.
Categoria: Devaneios
Escrito por Felipe Augusto às 12h02
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O conceito de liberdade é, adoravelmente, uma síntese de motivações e realizações banais. Vejam o meu maior exemplo; é patético: meu cabelo comprido. E a barba, geralmente. Claro, há muitos outros pormenores, mas isto se sobressai. Deve ser o de muitos homens. Não acredito, entretanto, que o de muitas mulheres seja de seus cabelos curtos. A liberdade vem, segundo minha linha de pensamento, em conjunto de algum tipo de cultivo, físico ou emocional. Não sugiro com isso, entretanto, que acredito que devam deixar crescer a barba. Aliás, muito menos quero generalizar o conceito sacrossanto e individual de liberdade. Exponho minha simplória alegria - o cabelo comprido - para que ninguém se sinta tolo por se sentir mais feliz usando calça xadrez e camisa listrada, ou por gostar de cantar alto sua música favorita, ou coisas consideradas mais "baixas" que, por pudor alheio, não ilustrarei, embora eu creia que, enquanto não afetarem o conceito de liberdade de outrem, são tão válidos quanto qualquer outro.
Categoria: Devaneios
Escrito por Felipe Augusto às 01h15
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Eu não tinha nenhum lugar Eu não tinha nenhum lugar, e procurei bem, procurei, fui de blog em blog e de fotolog em fotolog, mas não achei. Há alguns campos vazios no meu perfil do Orkut, e muitas folhas em branco nos meus cadernos, mas não são o local. Voltei a este blog, que, de qualquer forma, não é melhor lugar. Mas tinha que ser em algum. Afinal, só preciso escrever, só escrever, sobre escrever e pensar e compreender e aceitar. Eu só precisava de um lugar, e vi que ainda não tenho todos os lugares ideais para todas as finalidades.
Meus pés estão gelados, e meus dedos das mãos errantes. Estou só batendo no teclado, quando deveria riscar minhas folhas com minhas garatujas e fazer logo o que estou sempre pra fazer. Escrever. Ouso achar, por um instante, que compenso minha displicência escrevendo aqui, e depois copiando este tópico para minha comunidade no Orkut, mas isso não vale. Aliás, não tem muita coisa que me valha, agora.
Queria estar aqui e escrever as coisas de fato, mas não, eu não vou escrevê-las, porque não são só minhas, e porque não sei; é isso, não sei! Sinceramente não entendo mais das coisas, nem de mim, pois não deixo de ser uma coisa que alguém não entende; então, por mística empatia extracorpórea, também deixo de me entender.
Preciso escrever sobre alguma coisa, mas nenhuma em específico. Na verdade, eu estive escrevendo muito sobre algo, mas tudo foi tão inconclusivo que sinto que pelo menos preciso dar vazão à pura escrita para evitar um enlouquecimento negativo. Porque, afinal, a loucura virou meu sonho de consumo. Estive pensando sobre como as mais alucinantes drogas não fazem melhor efeito que eu mesmo posso fazer sobre mim quando quero. Uma maneira fácil de se conhecer o outro lado do universo é escolher umas boas três músicas, não, boas não, excelentes, as mais elevadas que seu espírito entender (mas faça o favor de não ser porcaria de funk, tem que ser algo que inebrie de verdade), e colocá-las para tocar em sequência. No último volume do fone de ouvido. Sim, o último volume nunca vai ser tão agressivo a ponto de machucar mais que a falta de significado da vida. Demais, fones de ouvido comuns não extrapolam os limites comuns dos tímpanos comuns.
Então, leitor, coloque a música para tocar e sinta cada batida, cada grito de cada instrumento, cada tom de voz do cantor, sinta, mas sinta a música como nunca sentiu nenhum orgasmo, veja, eu estou dizendo pra sentir, no âmago, tudo que nunca se pôde sentir em toda uma vida de emoções. Sinta. E, quando perceber que sente a música como se fosse a canção da inconstância de sua própria mente, comece a falar consigo mesmo, lá dentro de sua cabeça. Discuta com o volume da música. Grite, grite por dentro! Não vai conseguir se ouvir. Então vai forçar a voz da mente. E vai ser um duelo incrível, creiam-me, cheguei quase à inconsciência com isso, ontem. Embriaguei-me como nenhum álcool jamais me embriagou, e sem nenhum dos efeitos negativos – como se tomasse o soma de um admirável mundo novo, mas cuja elevação alcançasse sem pílulas, uma trilha só minha, sem estimulantes. Desci do ônibus como desceria de uma sege que me houvesse levado às firmes e, como todo bom mistério, palpáveis nuvens do firmamento. E parei, fiquei lá do lado do ponto, ouvi o resto de toda a música, depois andei e me desencontrei e quase perdi a entrada do condomínio. Brinquei com as chaves. E todo o tempo, a vista turva; estive em cada canto do universo. As músicas acabaram. E aos poucos percebi que eu não era mais o mesmo, embora parecesse. Eu via versos intangíveis do cosmo, ainda alguns instantes depois do ocaso daquela loucura mais forte, mais atuante. Então entendi que devo passar o resto da minha vida gostando de músicas e guardando as melhores para, no meu derradeiro momento, colocá-las todas, dezenas, a tocar e partir de toda esta insignificância com grande estilo. Com todas as músicas que mal me lembrarei de hoje, mas que me alçarão alto quando forem tocadas uma última vez mais.
E escrevi tudo isso porque precisava escrever sobre alguma coisa. Não era minha intenção. Estou com problemas que me assustam, então ando meio estranho. Acabo por pensar nos problemas piores que as pessoas têm por aí, e pondero se os meus valem a pena. O mundo de alguns é o amor por cada pedaço de pão seco, imundo e mofado que se encontra – o que constitui uma motivação mais relevante, se se pensar no puro exercício de sobreviver. Meu mundo, no qual anseio por outras saciações, parece pouco honroso, sem filantropia, leviano. Meus problemas nem parecem problemas. Não há o malfado da pobreza, não há verdadeira falta de nada vital. Mas concluo que é besteira pensar dessa forma. Cada vida é uma insanidade interior inexprimível e eternamente desconhecida pelos que estão por fora de cada corpo, onde as mais profanas loucuras sempre habitam. Por vezes vem a sensatez e finge ser quem manda, e enxota a loucura, mas ela volta, ela é a dona da razão. Ela é a dona da razão! Todos os argumentos científicos podem dizer o contrário, ou concordarem, mas cada um sabe, no âmago de seu ser, que a ciência não vale o menor centavo da mais miserável das moedas ante a absoluta e obscura consciência. Seu significado escapa por todas as tangentes das curvas mais abertas, e foge pela impossível tangente das mais perfeitas retas. Continuo absorto em escrever. Não consigo parar. Tenho que aprender a me comportar, essa coisa de escrever é uma maldição. Mas adoro maldições. Cada vez mais sinto que fui puxado para os lados dos quais antes tinha medo. Hoje eu adoro cada desafio da linguagem e do pensamento. Quero os piores. Quero antes do tempo certo. Não quero amadurecer aos poucos, aliás, talvez nem amadurecer seja o conceito certo. Quero a avalanche, o apocalipse de todas as coisas ao mesmo tempo. Não quero ter tempo para pensar, e além disso quero tomar as decisões erradas – desejo inviável ao pensamento num momento de desespero. Querer tomar decisões erradas. Não sempre. Mas só pela emoção de encurtar o tempo para cada veredicto. Para a próxima decisão ficar ainda mais difícil. Para que eu supere o impossível na última chance de todas, por todas.
Sinto o peso de cada dia que passa ao passo do contar dos erros. Não suporto mais. Levei isso a sério demais. Sinto-me obtuso, imundo, ignominioso. Anseio pela beleza, mas me agrada cada antro de negativismo e feiura. É sobre tragédia que construo, que edifico. Gosto de sentir que há uma névoa de coisas horríveis no limite de minha capacidade de suportá-las, de dominá-las, de mantê-las sob total controle.
Quero cada vírgula que me tiram, cada linha que me extorquem, cada estrofe que me raptam. Eu queria entender melhor as coisas e ser feliz com o decorrer dos fatos, queria que não houvesse tantas coisas incompreensíveis nessa vida, não queria deixar cada momento bom passar, queria juntar meu desejo pelos reptos abomináveis e vis na mesma vida que quero ter em harmonia e paz e alegria e amor, não queria deixar escapar um grama de beleza da minha vista, não queria esquecer uma só palavra das que eu treino para cada momento em que sonho proferi-las. Não queria ser mil coisas, e gosto de ser mil outras. Queria saber por que é tão difícil encontrar alguém que se enverede pelos mesmos ora lamaçais ora tapetes vermelhos que trilho, que trilho por que quero, aliás. Queria saber se já não encontrei cada pessoa que sonho encontrar, se não sou jovem pra isso, velho praquilo, se tenho cara de isso, corpo daquilo, pensamentos e gostos disso, atitudes e frescuras daquilo. Quero me deixar cair de cada ponte que tenha colchões abaixo, quero subir cada montanha que tenha um prato de sopa quente me esperando no cimo, quero viajar pelas entranhas da Terra e pelos confins de todas as galáxias. E quero saber por que não consigo mais dormir direito, mas ainda assim quero continuar insone, quero meus pesadelos que há tempos não tenho com a frequência que me agrada. Quero todas as antíteses do amor, todas do ódio, da raiva, da indecisão, toda a antítese entre todos os sentimentos, e daí os paradoxos, eu os quero todos. Eu não quero perder nada. Mas quero quase perdê-las, todas essas coisas, falo sério, por um triz, e quando digo “um triz”, não é aquele “triz” clichê, quando a mão de alguém se agarra com firmeza a de outro alguém que despenca. Quero segurar pelas pontas dos dedos a minha salvação antes de cair no abismo da pior e mais profunda das fendas. E, então, quero não saber se me deixo cair de vez, se faço só o esforço de me segurar para ver qual é de fato aquela moral toda da gravidade ou se me puxo de volta com toda a intensidade de um ser apavorado, completamente temeroso, absolutamente aterrorizado. Em verdade, quero viver quantas vidas eu puder para passar por todas essas situações. Mas, como só tenho uma, ficarei sem saber responder qual decisão eu tomaria, até que algo assim algum dia me ocorra.
Eu não quero deixar os momentos passarem, de todas as coisas que menos quero. Eu quero que as coisas deem certo, de todas as coisas que mais quero. Queria que minhas palavras se transmutassem em beleza física, em forte aura, me atribuíssem as melhores qualidades palpáveis, não me só deixassem a beleza da filosofia leiga, da erudição aspirante. Em certos momentos, essas coisas não valem nada. Valer-me-ia mais uma força maior no olhar, um sorriso mais torneado, um falar mais sussurrante, um nariz menos proeminente, cabelos mais formosos, todas as qualidades que se vistam. Queria que minhas palavras me alterassem, me deixassem mais como eu queria ser. Ah, e cada conquista que almejo... cada uma! Cada história. Cada eflúvio de emoções que sequestro do espaço e do tempo.
Escrevi, escrevi! Escrevi coisas que me importam mais que qualquer consulta a terapeutas. Que seja ininteligível, que seja! Quero ler estas minhas palavras todos os dias, por enquanto, e saber como é bom ainda conseguir me expressar, pelo menos pra mim mesmo. Ou não; decerto, não; creio que se esgotarão na próxima releitura. Pago por não mais desejar estabilidade emocional, mas o avesso.
E então vêm coisas novas que, por incrível que pareça, me deixarão ainda mais debilitado, senil, fenecido da vida pela fluência do lirismo; enfim, acabado. Pensar é atemorizante.
Venham, sonhos! Eu os degustarei. São todos meus! Cada parte de mim, farei valer.
Meus sonhos! Quem é maior? Eu ou vocês, sonhos meus? Quem deseja? Quem cumpre? Quem perde? Se alucina? Se desengana? Quem aproveita cada átimo da vitória? Ou mesmo da sombra da vitória?
Escrevi. Mas não estou mais leve.
Sempre extrapolo os limites dos assuntos que me afligem e passo a versar sobre todas as considerações gerais sobre a vida na forma como a contemplo.
Foi bom falar com você, leitor. Foi melhor ainda falar comigo mesmo.
É bom viver pelo prazer de conhecer a luz e a sombra. Bom viver pela certeza e incerteza.
Bom viver aqui, bom viver com pessoas interessantes aqui. Mas ainda não sei. Das coisas que vêm. Abraços.
Categoria: Especial
Escrito por Felipe Augusto às 14h23
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Parem! PAREM! Parem com espaços duplos, palavras Com Letras maiúsculas Ao Acaso , pontuação; incorreta, voçês Naõ sabem como Me maltratam! Por que tamanho desleixo? Ainda tacham e chalaçam de quem procura qualidade na língua escrita como idiota! Em recônditos poucos topo com apuração gramatical, dever de todos! Ao menos esforço deveria ser. Aprecio quaisquer tentativas de aprimoramento; todavia, parece um elogio bastar para que se dispense maior busca por erudição. Não querendo atingir quaisquer méritos por este discurso exaltado, mas uma olhadela para revisão, antes de publicar qualquer coisa, não custa nada. Dois minutos que se perdem em troca de menos espaços duplos e maiúsculas desnecessárias, e diversos outros erros. Ao menos parem com espaçamento duplo! Vi, outro dia, entre os nomes da responsável por uma publicação periódica, cujo nome não direi por motivos óbvios, como assim: Fulana de Tal. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!
Categoria: Migalhas
Escrito por Felipe Augusto às 23h04
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